O fio multicor da história: cosendo um ensino para a Galiza Artigo de Paulo Queiruga

Ano 1969. Sábado 28 de junho. A história começa a se tornar mais multicor. A história começa a se desfazer do branco e preto para se pintar de vermelho, de lilá, de amarelo, de azul, de todas as cores conhecidas e as que estão por descobrir.

Esse sábado entre copos, luzes, danças, identidades, opções, sexualidades e muita subversão ergueu-se uma das múltiplas bandeiras das dignidades, a bandeira da dissidência sexual e de género. Começavam os distúrbios de StoneWall que marcariam no calendário o dia em que começou a libertação sexual.

Este fito histórico que marca, de alguma ou outra maneira, a união de múltiplos fios de diversas cores em um grande fio multicor é essencial para entendermos as lutas nas que participamos e os projetos que compartimos. No caso da construção de um ensino de nosso tampouco é alheio. A luta pela libertação sexual também está nas aulas, ou dito de outra forma, um novo modelo de ensino há de ser libertador das sexualidades e identidades.

Nestes momentos que as estudantes galegas estamos a organizar-nos para construirmos uma Lei Galega de Educação (LGE) é essencial que o coletivo LGBT participemos de uma maneira direta e ativa na elaboração de esta lei. É essencial por múltiplas questões.

A primeira, e mais obvia, é que como coletivo precisamos uma lei que se adapte à nossa realidade e que nos garanta seguridade e não discriminação no ensino. Os centros de ensino galegos, neste momento, são um dos espaços mais perigosos para o nosso coletivo. Seguimos a sofrer acosso, a levar golpes, a ser insultadas. Ir às aulas torna-se uma guerra, torna-se em um esforço mental e físico. A LGBTfobia não pode ter cabida no ensino.

Um dos pontos fundamentais deve ser o de aportar a nossa visão para que o ensino seja um piar fundamental da destruição da cisheteronorma e do cisheteropatriarcado. Nós, como oprimidas pelo cisheteropatriarcado, temos o dever e a necessidade de aportar a nossa visão sobre este tipo de organização social e as suas causas e consequências. Só contando com as TransMarikaBolhoBis poderemos criar um ensino que rache com o sistema cisheteropatriarcal e seja motor de uma nova ordem social.

Esta lei deve garantir que o ensino seja um eixo fundamental para rematar com a LGBTfobia e que ensine a todo o estudantado galego na diversidade. Começar a construirmos a sociedade de amanhã, das diversas e iguais. Desterrar a intolerância.

Temos a experiência de autoconhecimento, já que nas margens do sistema ninguém nos explicou o que era a nossa opção sexual ou identidade de gênero. Tivemos que descobri-la por nós mesmas. Sabemos o que é autoanalisar-nos e autoquestionar-nos para saber que somos. Isto é sem dúvida uma aportação que podemos fazer às nossas companheiras que não passaram por estes processos para, juntas, conhecermo-nos e abandonar frustrações e autoculpas derivadas deste desconhecimento.

Mas para mim a razão mais importante é que após séculos de sermos insultadas, excluídas, agredidas e assassinadas conformamos uma visão própria do mundo e das injustiças. Temos a experiência de saber o que é estar nas margens, o não existir e isto dá-nos a habilidade de detetar e mediar ante situações de discriminação, o que à hora de redigirmos uma Lei Galega de Educação tem que ser fundamental para artelhar os mecanismos e protocolos necessários para que o estudantado seja livre e feliz.

Assim que faço um chamamento a todas as estudantes Trans, Marikas, Bolhos e Bis galegas, precissamos de toda a vossa experiência para fazermos da Lei Galega de Educação uma Lei subversiva!

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